quarta-feira, 14 de maio de 2008

EDUARDO PRADO COELHO


(Eduardo Prado Coelho, antes de falecer, teve a lucidez de nos deixar esta reflexão, sobre nós todos, por isso façam uma leitura atenta. É um pouco longo, mas vale a pena)
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A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.

Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.

O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.

Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma Virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.

Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos ....e para eles mesmos.

Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.

Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito;

- Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano;

- Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos;

- Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros;
- Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é muito chato ter que ler) e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.

- Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.

Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.

- Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.

- Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.

- Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.

- Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.

- Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.

Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.

Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA' congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...

Fico triste.

Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada...

Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.

Qual é a alternativa?

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?

Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados!

É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...

Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.

Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.

Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.

Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:

Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, tolerantes com o fracasso.

É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.

Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.

AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.

E você, o que pensa?.... MEDITE!

EDUARDO PRADO COELHO, in Público

Max Weber


As lutas partidarias não são, portanto, apenas lutas para consecução de metas objectivas, mas são, a par disso, e sobretudo, rivalidades para controlar a distribuição de empregos.

in, a política como vocação

terça-feira, 13 de maio de 2008

EÇA DE QUEIROZ

Nestes estados de civilização, ruidosos e ocos, tudo deriva da vaidade, tudo tende à vaidade. E a forma nova de vaidade para o civilizado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa comentada no jornal! «Vir no jornal» eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema.
(…)
Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal.
In, Correspondência de Fradique Mendes

segunda-feira, 12 de maio de 2008

A Ramalho Ortigão


Meu caro Ramalho

(...)

E simplesmente o que eu quero fazer, é dar um grande choque eléctrico ao enorme porco adormecido(refiro-me à pátria). você dirá:



Qual choque! oh, ingénuo! o porco dorme: podes-lhe dar quantos choques quiseres, com livros, que o porco há-de dormir. O destino mantém-no na sonolência, e murmura-lhe: « Dorme, dorme, meu porco!»



Perfeitamente: mas eu estou-lhe a dizer o que pretendo fazer - e não o que o país fará: naturalmente continuará a dormir: veremos.



Eça de Queiroz, Newcastle, 10 Novembro de 1878

domingo, 11 de maio de 2008

Álcool: A distorção dos incentivos

No texto de ontem coloquei a questão na distorção dos incentivos[1], ou seja, as pessoas, as empresas, os governos e até as economias respondem a incentivos. Se os incentivos estiverem distorcidos, as escolhas económicas que as pessoas tomam no dia a dia irão reflectir isso mesmo.

Para terminar, as questões do álcool, gostaria de retomar uma vez mais a questão da distorção dos incentivos, e a hipocrisia que reina neste país à beira mar plantado.

Ora, sendo o álcool o maior problema de saúde publica em Portugal seria de esperar da parte de quem manda que se tomassem medidas para combater este flagelo, e que não houvesse distorção dos incentivos.

Ora o que, infelizmente, se constata é precisamente o inverso, se não vejamos:

1- A Sagres Patrocina a Selecção Nacional de Futebol;
2- A liga Portuguesa de Futebol Profissional criou a taça da liga que se chama: Taça Carlsberg
3- A Liga Portuguesa de Futebol Profissional assinou contrato com a sagres para no próximo ano a liga de futebol passar a ser liga Sagres;
4- As cervejeiras podem patrocinar tudo o que é festa, concerto, festival de Música, Queimas das fitas, etc etc.

Lembro-me de quando a BWIN assinou contrato com a liga de futebol para patrocínio da Liga Profissional de Futebol, a celeuma que levantou por causa dos jogos de apostas, os processos que entraram em tribunal, as declarações de membros do Governo e da classe política sobre a matéria, os pedidos de pareceres sobre o assunto.

E não estava em causa nenhum, nem o maior, problema de saúde pública do país. MAS ISSO, SIM, ERA IMPORTANTE.

Agora que a Cervejeiras Patrocinem o futebol, os festivais, etc etc, não há problema algum para quem manda neste país.

Mas há e grave, é que caso ainda não se tenham apercebido morrem por ano 8000 portugueses devido ao álcool, os custos económicos foram calculados em 5% PNB e os custos humanos e sociais transcendem todas a percentagens.

É assim a hipocrisia de quem nos governa!!!



[1] Sobre a questão da distorção dos incentivos ver: Pereira, Álvaro Santos “ Os Mitos da Economia Portuguesa”, Editora, Guerra &Paz. Sem dúvida um dos mais brilhantes livros de economia escrito em português.

RESPOSTA AO COMENTARIO DA NOCAS

Nocas,
Se em Portugal se cumprissem todas as leis seríamos, sem margem para dúvida, o país mais perfeito do mundo.

Mas eu não poria a questão assim, pô-la-ia de outro maneira, e que é a distorção dos incentivos, ou seja, as pessoas, as empresas, os governos e até as economias respondem a incentivos. Se os incentivos estiverem distorcidos, as escolhas económicas que as pessoas tomam no dia a dia irão reflectir isso mesmo.

Incentivos errados levam a comportamentos igualmente errados.

As pessoas respondem aos incentivos que lhes fornecem. Se os nossos governantes e dirigentes quebram sistematicamente deliberadamente as leis, reduzem-se os incentivos para o cidadão comum as cumprir zelosamente.

Ou seja, se existe uma lei que proíbe o consumo de álcool a menores de 16 anos, se essa lei fosse cumprida, não veríamos os tristes espectáculos que vemos quando saímos à noite de miúdos de 13, 14, 15 anos completamente bêbados.

Assim se se quebram as regras uma vez porque não quebrá-las outra vez e outra e outra e outra?

Quando os governos têm um sistema de incentivos distorcidos, os seus desempenhos serão também afectados.

Exemplos de incentivos distorcidos é coisa que não falta neste país:

Rendimento Social de Inserção – incentivo ao não trabalho;

Toxicodependência: Descriminalização dos consumos de drogas, e da sua posse até à quantidade considerada necessária para 10 dias. Com o devido respeito quem anda com quantidade equivalente ao necessário para 10 dias só pode andar no tráfico.

Álcool – apesar de a lei proibir consumos a menores de 16 anos, consome-se a partir de qualquer idade que ninguém fiscaliza.
Contrariamente a alguns países onde o consumo é interdito a menores de 18, e quando há duvidas relativas à idade é solicitada a identificação à pessoa em causa sem qualquer problema;

Extinção dos Centros de alcoologia, e integração das atribuições no IDT.
O que se verifica é a redução da missão dos ex. Centros de Alcoologia, transformando-os em meros centros de recuperação de alcoólicos, o que significa um retrocesso aos anos de 1970.

Assim é difícil combater este flagelo.
SEM DÚVIDA ALGUMA O MAIOR PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA EM PORTUGAL.

Precisamos para além de incentivos não distorcidos, mais educação para a saúde, redução da oferta, prevenção, investigação, formação, na prática serviços especializados que possam dinamizar as intervenções quer o tratamento quer a prevenção.

A VERDADEIRA FACE DO ALCOOLISMO


As consequências decorrentes do consumo excessivo de álcool manifestam-se:


1- O abuso e a negligência infantil;
2- A violência contra as mulheres e a violência doméstica;
3- O elevado número de mortes por cirrose alcoólica (4ª causa de morte) e por acidentes rodoviários conexos;
4- O desemprego e a exclusão social;
5- O insucesso escolar (que é duplo nas crianças e jovens que consomem álcool, versus os que não consomem bebidas alcoólicas);
6- Acidentes de trabalho (mais de ¼ estão relacionados com os consumos de álcool); suicídios;
7- Homicídios (mais de metade estão relacionados com o consumo de bebidas alcoólicas);
8- Internamentos hospitalares (chega a atingir os 50%);
9- Taxa de mortalidade precoce e distorcida;
10- Síndrome fetal alcoólica, absentismo, etc.

As consequências decorrentes do consumo excessivo de álcool manifestam-se não apenas em problemas de saúde como, até, em situações de infelicidade, perda, dor, privação, negação de si mesmo, ruptura familiar e marital, danos a terceiros e autodestruição.

Os custos económicos dos problemas relacionados como álcool foram estimados em 5% do PNB. Os custos humanos e sociais, esses, transcendem todas as percentagens.

O problema do álcool existe e não afecta apenas o indivíduo. As questões decorrentes da ingestão excessiva de bebidas alcoólicas acabam sempre por se reflectir nas famílias e na sociedade, exigindo destas muita atenção e elevadas despesas.

Em 1988 foram criados em Portugal os Centros Regionais de Alcoologia, ( Decreto Regulamentar n.º 41/88 de 21 de Novembro) seguindo as resoluções emanadas da OMS e as recomendações do perito consultor para Portugal daquela organização.

Em 2006 os centros regionais de Alcoologia foram extintos ( Decreto-Lei nº 212/2006 de 27 de Outubro) sendo as suas atribuições integradas no Instituto da Droga e da Toxicodependência, I.P.

Estima-se que existam no nosso país mais de 1 milhão pessoas com problemas de álcool (dependentes +síndrome de abuso) e cerca de 500 mil alcoólicos dependentes.

Este magno problema de saúde pública ceifa a vida a mais de 8000 portugueses por ano.